Identidade Privada


1. Banheiro. Reservado. Interior. Dia
A faxineira, uma mulher por volta dos 30 anos, está no reservado. Ela limpa a privada, com cuidado. Tem ao seu lado um balde e um esfregão. A porta do reservado está fechada. Enquanto ela está abaixada, esfregando o vaso, percebe que pelo menos duas pessoas entraram no banheiro.

2. Banheiro. Espaço do espelho. Interior. dia
Um casal entra no banheiro se beijando, com bastante intensidade, quase transando.

3. Banheiro. Reservado. Interior. Dia
A faxineira atenta ao ruído de gente no banheiro. Ela fica quieta, abre uma fresta na porta, esperando ver o que acontece. Ela não consegue ver os rostos do casal. A faxineira dá um sorriso com malícia, aprecia a cena com um prazer voyeur. Depois de acompanhar o casal em alguns amassos, ela fecha a porta e volta para seu trabalho, em silêncio. Ela continua esfregando o vaso, sem parecer dar importância ao casal do lado de fora. Algum tempo depois, ela ouve um grito abafado e abre de novo a fresta na porta, para espiar. Horrorizada, nota que o que era pra ser uma transa se transforma num assassinato.

4.Banheiro. Espaço do Espelho. Interior. Dia
O homem, com a ajuda de um fio, enforca a mulher que o acompanha. Ela se debate, enquanto ele a sufoca, apertando mais e mais o fio, segurando-a por trás. Os braços da mulher param lentamente de se debater, evidenciando sua morte. O assassino deita o corpo da mulher de costas para cima, com delicadeza. Se levanta, coloca o fio no bolso e se prepara para ir em direção à saída do banheiro. De repente, ele se volta.

5. Banheiro. Reservado. Interior. dia
A faxineira fecha a fresta na porta rapidamente, esperando que ele não tenha notado sua presença. Ela se senta apavorada no vaso, tapando a boca pra ficar quieta.

6. Banheiro. Espaço do Espelho. Interior. Dia.
Vemos os pés da garota morta estirada no chão do banheiro, e o homem caminhando em direção ao reservado, ainda sem ver-lhe a face.

7. Banheiro. Reservado. Interior. Dia
A faxineira tenta abafar seu choro.

8. Banheiro. Espaço do espelho. Interior. Dia
O assassino, pra se certificar que não há testemunhas, abre a porta do reservado. Quando pensamos que a faxineira será pega, vemos o assassino fechar a porta e ir.

9. Banheiro. Reservado. Interior. dia
A faxineira está escondida atrás da porta e o assassino não a vê. A faxineira dá um tempo, tenta se recompor. Quando consegue controlar seu choro, abre uma fresta na porta para ver se o assassino ainda está lá, e sai do reservado.

10. Banheiro. Espaço do espelho. Interior. dia
A faxineira vê o corpo no chão e se dirige a ele, lentamente. Olha a morta por alguns segundos, dos pés à cabeça. Inesperadamente, a faxineira se abaixa e tira o calçado da defunta. Mede o sapato colocando-o na palma do seu pé e, depois de tirar seu chinelo surrado, calça o sapato.
A faxineira se vira para a porta do banheiro, como se quisesse reparar em alguém se aproximando. Sem perder tempo, volta-se novamente para o corpo, tocando as roupas da morta, verificando sua qualidade. Então, pegando o corpo pela cintura, começa a virá-lo, com a intenção de desabotoar sua calça. Assim que acaba de virar o corpo, a faxineira pára o que fazia assustada e se levanta. Olha na direção do corpo, parecendo não acreditar no que vê. Vemos o rosto da falecida em detalhe: é o mesmo rosto da faxineira. E a expressão da morta, apesar da forma violenta como morreu, é de escárnio, um leve sorriso está em sua boca. A faxineira fica apenas mais alguns segundos observando o rosto da mulher morta, e em seguida se abaixa e começa a desabotoar a calça da morta.

11. Banheiro. Espaço do espelho. Interior. dia
Agora vemos a faxineira usando todas as roupas da falecida. Ela se vira para o espelho e o reflexo mostra um sorriso discreto e malicioso. Um sorriso muito parecido com o que a mulher morta estava. A faxineira pega repentinamente o esfregão e atira no espelho, partindo-o. Depois disso, ela se volta para a porta do banheiro e sai.

12. Corredor. Interior. dia.
A faxineira sai do banheiro sem demonstrar nervosismo. Pelo contrário, carrega o mesmo sorriso cuja visão a fez quebrar o espelho. Com olhar confiante sai pelo corredor, até sumir da nossa visão. O corredor segue vazio por alguns instantes até que vemos as pernas de um homem caminhando na mesma direção que seguiu a faxineira. São as mesmas pernas do homem que matou a mulher no banheiro.

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